Alguns dos trajes tradicionais de Viana do Castelo

A época da maior romaria de Portugal está ai à porta. O mês de Agosto chegou e a cidade ferve por todos os poros. As maravilhosas festas da Senhora d’Agonia 2014 estão ai. Este ano será um ano maravilhoso com toda a certeza, este é o cartaz 2014.

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Tenho recebido algumas questões sobre os fatos tradicionais de Viana do Castelo: como são, quais as diferenças, o que cada um deve levar, etc. Devido a essas questões resolvi fazer um post onde mostro alguns dos fatos, com uma breve explicação sobre cada um.

Trajes de festa

Roupas usadas pelas mulheres da região de Viana do Castelo em épocas festivas, quer de carácter religioso como social. São trajes mais ricos e eram um autêntico dote dado à mulher, com ele passariam momentos marcantes da sua vida, que vão desde o casamento até às mais importantes festas religiosas e funeral :/.

Mordoma

No Alto-Minho, as mordomas são as moças encarregadas de recolher fundos para a realização da romaria ao santo padroeiro da sua terra. Os trajes das mordomas, geralmente pretos ou azuis-escuros (variante mais moderna e usual nas moças ‘da cidade’ ou mais endinheiradas, porque assim mostravam que não precisam de o aproveitar, e para se destingirem das restantes). Este traje serviria mais tarde como vestido da noiva (com a casaca e véu) e ainda para com eles serem enterradas. O lenço ‘tapete’ na cabeça em seda, colete, algibeira, avental (com brasão Real), chinelas pretas e saia  na cintura

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Festas Viana22Traje de noiva

Negro e soberbo, de uma riqueza e importância sem tempo. A noiva troca o lenço de mordoma (colorido e de seda), por um lenço de fina cambraia (tecido leve feito em algodão ou em linho) bordado, cruzado à frente. Mas também (e mais usual) existe o véu de renda ou tule bordado, que é levado de pontas caídas sobre o peito. A vela votiva ou palma da Páscoa, são agora trocadas pelo ramo de noiva, normalmente de formato redondo e composto de vivás e flores de laranjeira. O lenço de Amor é o mesmo que sempre a acompanhou, composto por motivos florais, frases de amor e motivos vegetalistas, sempre feitos em ponto cruz, ponto cheio, pé-de-flor ou cheio.

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Traje de lavradeira

São coloridos e devem os seus tons às diversas regiões do Alto-Minho. Os azuis são associados as terras viradas ao mar, os verdes das terras montanhosas e verdejantes, o traje vermelho é ‘à vianesa’ ou ‘à moda do Minho’  por excelência. É um traje de festa, de ‘grande gala’, a saia é normalmente pelo tornozelo, com listas verticais, de roda farta e forro (barra bordada no fundo), o avental é franzido na parte superior. Existem dois lenços: um traçado no peito e apertado atrás, na altura da cinta; outro trespassado sobre a nuca e atado no alto da cabeça.

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Festas Viana6Traje de meia senhora/morgada

O traje de meia senhora tem tido alguns problemas de enquadramento histórico devido às suas origens, uso e costume. O traje tem a sua raiz na seguinte explicação: a lavradeira que podendo já estar casada (portanto a sua posição social e económica já evoluiu) , ainda não atingiu o reconhecimento social e porque era da cidade, e assim sendo era uma ‘meia senhora’. Não deixa no entanto de ser um fato de uma mulher de casa farta, boa lavoura, criadagem, soalho bem encerado e o cheiro a mosto (toda mistura açucarada destinada à fermentação alcoólica) nas adegas.

Leva a casaca de mordoma/noiva, a saia de chita com estampado de flores, adornada com bastas e folhos, mas pode também ser de uma saia de fazenda preta com uma basta e um galão bordado a vidrilho da mesma cor, a rematar as chinelas pretas. Sobre os ombros um lenço de seda natura estampado (normalmente usado na cabeça enquanto mordoma), bem como a “casaca de confeitos” a pender-lhe das mãos a substituir a algibeira, ou um xaile.

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Cantadeiras do Vale do Neiva (foto)

Trajes de dó

Os trajes de dó eram utilizados em momentos de luto familiar, ou quando algum familiar ia para o estrangeiro. Simbolizam a dor pela separação, por isso mesmo a cor que predomina é a preta e as cores mais escuras.

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Trajes de trabalho

Trajes usados para as lides do campo, da casa e também para sair: namorar, ir à missa, ir à feira, etc.

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Traje de feirar característico da margem Sul do rio Neiva (foto Cantadeiras do Vale do Neiva).

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Saia de lã e avental de serguilha, blusa de flanela, lenço na cabeça e facha preta nas ancas (em algumas circunstâncias por razões de saúde, noutras para proteger as roupas em determinados trabalhos), socos e meias de lã. (foto Cantadeiras do Vale do Neiva).

Ourar

A moça de Viana no seu traje de trabalho, da semana ou de cotio, nas lides da casa ou no campo, não se sentia “ourada” caso não levasse os seus brincos e colar de contas. Caso contrário, iria se sentir ‘fanada’.

Já quando vai à festa, ‘passear’ na cidade, a vianense enche-se de gieira e leva o ouro dado por seus pais. Caso esteja de noivado marcado (mordoma), acrescenta a este o ouro dado por seus sogros. Como noiva leva o dote.

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Finalizado, mas este assunto há muito coisa acrescentar, é digno de Teses e mais Teses. Há muitas informações, muitas opiniões e muitas alterações próprias do tempo e das vontades. O que importa é que esta Romaria 2014 seja magnífica, que se honrem as raízes, se respeitem os costumes e se viva intensamente cada momento.

Mas fiquem aguardar porque irão surgir mais artigos sobre o assunto, tão querido e apreciado pela minha pessoa.

Beijinhos***

P.S. As fotos dos trajes em modelos são todos da propriedade da D.Marta Prozil, que tem loja na cidade de Viana do Castelo. Se quiserem ver mais artigos regionais e feitos a pensar na tradições Minhotas, passem pela Feira de Artesanato Contemporâneo e Tradicional de Viana do Castelo, que decorre do dia 10 a 20 de Agosto.

Fontes: imagens reprodução, Marta Prozil, Cantadeiras do Vale do Neiva

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7 thoughts on “Alguns dos trajes tradicionais de Viana do Castelo

  1. José Marques diz:

    Conta-se muitas histórias sobre as vestimentas regionais .
    Sobre o Fato de Dó aconselho que leia o livro Arquivo do Alto Minho página 138.
    José Rosa Araújo.aborda o fato em questão e descreve o luto conforme a época .
    Quando havia luto , as famílias não iam a romarias e a mulher em geral não usava ouro !
    Na enciclopédia Luso-Brasileira de 1945 apresenta uma descrição sobre os fatos Regionais.
    Na página 11 da mesma obra , quando descreve o distrito de Viana do Castelo pode-se encontrar alguns dados interessantes sobre esta matéria.
    A dado momento diz..em 1945 …Os atuais fatos não passavam de modesta roupa de cotio que depressa requintado se transformou em traje domingueiro..
    Acrescenta também ……: é falso apresentar-se trabalhos agrícolas tais como lavradas, carretos, esfolhadas, espadeladas e outros serviços com mulheres trajadas com fatos ricos.
    Estas atividades de maneira nenhuma se coadunam nem com o trabalho ou tarefas que estes trabalhos obrigam . Os modelos considerados atuais são na realidade , um tanto diferentes das décadas passadas, conforme fez notar o próprio Claudio Basto. O fato evolui ,conforme diz , o autor.
    Em 1945 , os trajes já não correspondiam à realidade.
    O que acho inadmissível é ver pessoas em palestras , abordar assuntos como fossem detentores da verdade. Muitas vezes relatam coisas que não correspondem à verdade.

    • thefairystyle diz:

      Acredito perfeitamente no que diz José Marques, eu apenas coloco aqui o que leio e me contam. Mas não sou especializada no assunto, apenas uma apaixonada pelas tradições minhotas, mas que se ouvem muitas coisas e depois se vêem outras completamente diferentes, isso é bem verdade. Sem dúvida que os fatos de trabalho não poderiam ser ricos, nem as mulheres levariam qualquer tipo de peça de ouro para o campo, já que se estavam a trabalhar isso não varia nenhum sentido nem seria de todo prático. Há fatos de trabalho agora que são envergados como se de festa fossem, e isso é triste.
      Obrigada pelo seu comentário e pela sua importante explicação.
      Obrigada mesmo.

  2. Santamartense diz:

    No jornal Aurora do Lima de 30 de Setembro de 1987 faz referência ao fato em questão.
    Informo que o fato que existe no Museu não é o original , o primeiro era duma fazenda azulada mais grosseira . Pode-se confirmar em fotografias publicadas em livros ” Falar de Viana ” essa mesma diferença. Basta estar com mais atenção a certos pormenores.Muitas vezes passam ao lado de qualquer leitor.
    O traje de meia Senhora foi oferecido para venda, pela Senhora D. Maria Luisa Branco Cerqueira . No Jornal Aurora do Lima consta do seguinte : Aos doze dias do mês de Dezembro de mil novecentos e setenta e sete no lugar da Senhora da Ajuda , da freguesia da Meadela , concelho de Viana do Castelo e casa da senhora supracitada, reuniram-se os signatários – Alfredo Reguengo , José Rosa Araujo e Amadeu Costa – a fim de dar um parecer. Foram-lhes apresentadas as seguintes peças: Do Traje de Meia Senhora ”
    Saia e casaca em seda Azul
    Camisa em bretanha de linho, bordada a branco, com ” Ponto de Imprensa ”
    Dois lenços de seda , com barra azul , um dos quais espartidos. Ambos sem Franja.
    Saca de seda azul debruada a requife da dita cor.
    Botas em calfe preto com elastico e botoes.
    Sombrinha em paninho branco decorado
    Anágua em Cambraia com entre-meios de renda , com sombra branca.
    Lenço de amor com entre-meio de crivo , orlado a renda ” Crochet ”
    Esta é a segunda referênçia ao fato se ele realmente existiu !
    Em livros antigos ,jornais , fotografias , postais do inicio do Século XX, nunca vi referencia sobre esta matéria.
    O Fato não pode nem deve evoluir ao gosto pessoal ou à modernidade .
    Daqui alguns anos , vamos ver pessoas a dizer que possuem fatos antigos , mas vão-se se esquecer que muitos texteis hoje empregues não são algodão , e são aplicados ornamentos e galões em poliester.
    Senão estamos a deturpar a história e os fatos.
    Há um ano atrás , passei por acaso na Calla del Principe em Vigo e para supresa minha, vi um dístico num museu onde dizia ” Todas as traditions são inventadas “.
    Fiquei admirado com tal noticia que até tirei uma foto da mesma.
    No Jornal Aurora do Lima tem um artigo publicado sobre ” mordomas ” do ano de 2013 ( +- Novembro )onde figura essa fotografia em questão.

    • Barcelence diz:

      Esse “dizer” em Galego é muito interessante. Quando visitei o Egipto, lembro-me visitar museus, e aí ver trajos e jóias dos antigos Faraós, com as formas emblemáticas que todos conhecemos e das mais variadas. O guia turístico disse, por mais que uma vez, que cada tipo de coroa e roupa eram simbólicos, mas também propostos ( e respetivo simbolismo, também ) pelos artesãos, ao faraó, já que assim conseguiam mais encomendas e lucro! A tradição tem raízes, mas de facto, vai-se embelezando, sempre pela mão humana, daí a “invenção” que parece só merecer valor quando é mais que antiga! 😉 Entretanto, parabéns à autora do blogue/ página, pelos conteúdos e atenção ao Minho.

      • thefairystyle diz:

        Obrigada pela Barcelense pelo seu comentário.
        Gosto muito das nossas tradições e de ver que a cada dia e festa que passam, elas estão mais vivas e muitas vezes prontas a sofrerem pequenos melhoramentos, apesar de haver algumas que não são tão cuidadas e acabam por fugir ao passado e não dignificam o futuro.
        O simbolismo é usado desde sempre e nós bem vemos isso quer nas nossas jóias tradicionais, quer nos nossos trajes. Infelizmente nunca tive no Egipto mas acredito que lá ainda se encontrem marcas de passado e simbolismo ainda mais fortes.
        Agradeço mais uma vez 🙂

  3. Santamartense diz:

    Quem faz a descrição do fato de meia senhora não tem conhecimento sobre o assunto.
    A primeira noticia sobre este fato vem descrita no livro etnologia de Afonso do Paço.
    O fato mencionado nunca foi da cidade mas sim do meio rural ( Areosa) .
    Vem descrito no livro como fato lavradeira rica de Areosa.
    A mulher da cidade apresenta outra forma de trajar .
    Quanto ao fato de Festa, lembro que nem todas as mulheres o vestiam , lavradeira era um estatuto .
    Na festa do Livramento em Santa Marta de Portuzelo eram escolhidas para mordomas as filhas dos lavradores ricos . Todos os anos eram sorteados os lugares a designar.
    Tudo o que foi acrescentado ao texto descrito no livro etnologia , não passam de invenções de alguns historiadores da nossa terra. Criaram-se uma série de cores , feitios, e histórias .
    A dado momento eram mais as Meias Senhoras que Lavradeiras na Mordomia das festas da Senhora da Agonia .
    A própria D. Emilia Vasconcelos o reconhece a seu devido tempo.
    Faz-se a correção , o Fato de Lavradeira volta a ser o fato de eleição.
    Em linguagem etnográfica pretende-se se dizer: que o verdadeiro Traje, é o Traje de Festa que as raparigas das nossas aldeias trajem com ” chieira ”
    Quanto ao fato de Dó lembro que o luto à 80 anos atrás era rigoroso , a cor predominante era o preto.
    O grau de parentesco , a ausência do marido no estrangeiro obrigava as mulheres a serem mais recatadas .
    Não havia meio luto , não havia festas , nem ouro a expor .
    A mulher quando entrava numa igreja era obrigada a usar um véu negro.
    Este costume ainda era usado nos anos 60 .
    Era assim no tempo da minha mãe , avó , e da minha visavó.
    Em Santa Marta de Portuzelo e Outeiro não era exceção .
    Quem fugia a estas regras era ” apontada ” e mesmo discriminada .

    • thefairystyle diz:

      Obrigada pelo comentário Santamartense. Também já procurei em alguns livros do Museu do Traje, e o traje de meia senhora (como até o próprio dr.Francisco Sampaio tem referido em várias edições das festas da Senhora d’Agonia, tem dificuldade por ser um fato que foi evoluindo ao gosto e modernidade). Tal como está referido no livro do Museu: o fato de meia senhora não pode ser considerado na mesma categoria dos anteriores trajes regionais, uma vez que as suas características identitárias estão muito diluídas e obedece a lógicas que se afastam dos modos de vida tradicionais.
      O próprio fato de mordoma na variante azul é remetido para as moças casadoiras da cidade, que optavam por esta cor, para não serem “confundidas” com as da aldeia, que apenas tinham este fato “para os três momentos principais da vida”: mordoma em festa religiosa, casamento e para o seu funeral. Assim sendo, o fato azul mostrava que a mulher era endinheirada e podia ter este mais o de noiva. Tal como refere, também na minha família e nas famílias próximas, o hábito de usar véu para ir à missa era mais do que obrigatório, e quando a mulher ficava viúva, ainda o era mais, para mostrar recato e respeito pelo marido falecido. O uso do camafeu com a fotografia do marido, era outro item “obrigatório”.
      O fato de lavradeira (traje “à vianesa”) é a designação geral do vestuário popular e rural usado pelas raparigas (as “lavradeiras”, termo que denuncia exactamente o facto de pertencer a uma rapariga que se define pela sua função de lavrar e trabalhar a terra).
      Sabemos que os trajes foram ganhando mais importância nas terras, consoante existiam grupos folclóricos ou não. Só esses grupos foram desenterrando as raízes e lhes dando uma roupagem mais actual. Esses grupos foram recriando os seus trajes e foram lhes dando a regionalidade que agora envergam.
      Mais uma vez obrigada pelo seu comentário e explicação, porque me é um tema que me desperta muito interesse.

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